Nemo Regit Mea Vita


Uma Casa

UMA CASA

Um Conto da Casa de Von Troft
Por Rita Maria Felix da Silva


Era a Casa, como sempre fora, com seus distintos, inúmeros e monstruosos habitantes, num deserto rochoso, sob um céu de eterno cinza em que crepitavam relâmpagos.

Certa vez, Yuri, o vampiro, voltou perturbado do porão (onde se alojara o Cientista Louco). Encontrou Emílio, o lobisomem, na sala de jantar.

— Fui visitar o Barão Von Troft.

— Cuidado para não ficar louco também. O que foi que ele disse?

— Já pensou sobre o que é esta casa e o que realmente somos? O Barão me disse que não é uma casa de verdade, mas sim a mente de um escritor humano e que somos apenas personagens imaginários e recorrentes desse escritor.

Emílio afastou-se furioso com aquela sandice.

FIM
Dedicado a Márcio Domenes


Escrito por Rita Maria Felix da Silva às 01h27
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A Estátua de Khar-Zhon-Yrkil

A ESTÁTUA DE KHAR-ZON-YRKIL

Por Rita Maria Felix da Silva

Exceto pelos refugiados humanos na lua deste mundo — um punhado de infelizes ainda sonhando com os dias perdidos da humanidade — ninguém mais chamava este planeta de “Terra”. Era Zephiraz, agora.

Na praça, o professor discursava orgulhosamente para seus alunos — uma multidão azul — a respeito da estátua de Khar-Zon-Yrkil, ídolo máximo do Povo e líder das gloriosas tropas que eliminaram os humanos durante a Grande Colonização.

Entediado, Zeirin-Nadamir virou-se para Naran-Yazir.

— Olha esses “rabiscos” na estátua.

— Ah! Simpatizantes de humanos! O Governo devia queimar eles!

— E o que significam?

— Língua humana antiga... “Inglaz, inglez”. Isso aqui é “genocida” e isso é “caçador maldito”. Besteira! Ih! O professor tá olhando pra cá com cara feia!

FIM
Dedicado a Aurellius Souza


Escrito por Rita Maria Felix da Silva às 03h09
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Yolanda, Caio e Zaida

YOLANDA, CAIO E ZAIDA

Por Rita Maria Felix da Silva

Nas primeiras memórias de Yolanda, sua mãe era perseguida por pessoas más. Em algum momento, a menina se viu num orfanato na colônia terrestre de Beta-LV.

Quando adulta, nas ruas e sem emprego, aceitou a proposta de Skander, um cafetão. Trabalho humilhante, mas morrer de fome e frio seria pior.

Os anos consumiram sua alma. Yolanda olhava para as naves decolando do espaçoporto de Beta-LV e sonhava partir para uma nova vida na Terra.

Contudo, para obter um passe de livre trânsito, o suborno dos burocratas do Ministério da Emigração era mais dinheiro do que ela poderia conseguir.

Porém, certa vez Skander enviou-a a um hotel na periferia. O homem que a recebeu (dizia-se chamar Raul), tinha sotaque da Terra e prometeu-lhe uma fortuna por uma única noite.

Ele foi monstruoso. Quando terminaram, Yolanda estava coberta de ferimentos e contorcia-se na cama. Ela olhou-o numa mistura de medo e ódio.

Raul ainda estava despido, de pé no quarto. Ele retirou de uma gaveta um computador que cabia na palma da mão.

— Quero a análise do segundo DNA. — disse ele para a máquina.

A voz que respondeu era idêntica a de Yolanda.

— Segundo indivíduo é replicante do primeiro — respondeu a máquina.

— Essa voz... — Yolanda indagou assustada.

— Parece a sua? É de seu “original”. Você não sabia que era uma replicante, um “clone”, se preferir o termo politicamente incorreto?

— Não há replicantes em Beta-LV.

— Exceto você. — respondeu Raul e voltou-se para o computador — Desative a máscara facial.

Então, o rosto de Raul mudou para uma face diferente. Um disfarce dos ricos da Terra.

— Sou Caio Gustavus Filomeneus, “O homem mais rico da Terra”. O Conselho Mundial controla a Terra e as colônias. Eu controlo o Conselho.

Yolanda lembrou dos comentários sobre ele. Seu medo cresceu ainda mais.

— E o que você...

— Há alguns anos, conheci uma moça chamada Zaida. Eu a mantinha acorrentada. Transar com ela era bom, mexia comigo. Nunca havia gostado de alguém antes dela. Amava feri-la, aterroriza-la e vê-la choramingando. Jurei que a teria para sempre comigo.


Um dia, Zaida fugiu. Executei uma dúzia de empregados por esse descuido. Meus mercenários rastrearam-na até aqui, em Beta-LV. Ordenei uma morte dolorosa. Quis ver o corpo antes de mandar incinerar. Abracei o cadáver e chorei.

Há alguns meses, por acaso, descobri você num relatório do censo de Beta-LV. Zaida não podia ter filhos (porque mandei que a esterilizassem. Ela sonhava ser mãe...) Nunca imaginei que ela faria um clone — afinal a religião dela não permite... E conseguiu te esconder antes que eu a pegasse...

Caio ficou em silêncio. Retirou da gaveta uma arma.

— Por favor, não...

— Fique calada. — disse Caio — Sabe, antes de você chegar, pensei em esquecer esse assunto. Afinal, Zaida está morta. Mas você me lembra demais ela... Transa do mesmo jeito... Me faz sentir feliz como Zaida fazia... E eu ainda a amo...


E a última imagem da vida de Yolanda foi Caio disparando o laser contra ela.

FIM
Dedicado a Miguel Carqueija



Escrito por Rita Maria Felix da Silva às 02h21
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Miguel Reencontra Júlia

MIGUEL REENCONTRA JÚLIA

Por Rita Maria Felix da Silva

Noite de quinta-feira chuvosa. Quarto no segundo andar daquela casa antiga. Júlia dormia um sono inquieto, enquanto uma voz falava para seu coração:

“Você e os outros me chamavam de Miguel. Quando estava vivo, amei você. Ainda amo, mas depois de hoje nunca mais te verei, porque me tornei perigoso demais e é melhor que eu me exile até este mundo acabar.

Como sabe, a herança de meus pais me permitiu uma vida farta e eu era fascinado pelo sobrenatural. Gastei uma fortuna para descobri tudo que podia sobre esse assunto.

Quando te encontrei, você se tornou minha âncora com o mundo real. Naquela época, me sentiria ridículo dizendo, mas hoje percebo que ‘nenhuma mulher jamais foi amada, como amo você’.

Podíamos ter casado e tido uma vida normal. Porém, não te escutei. Parti aquele dia, jurando que seria uma viagem rápida. Não era minha intenção, mas desapareci. Como você deve ter sofrido!

Vaguei por terras distantes. Eu havia subornado pessoas poderosas em troca da informação que me levou ao refúgio no Tibet dos últimos remanescentes dos humanos escravos da Atlântida (do tempo em que esta, a Lemúria e Thurseldunium governavam o mundo). Aquelas pessoas guardavam a cripta da divindade deles. Um lorde atlante. Um vampiro. Disseram-me que eu estava destinado a despertá-lo. Algo em mim hesitou, mas mergulhei nos pergaminhos que me mostraram, até que executei aquele terrível ritual. Dez escravos cortando as gargantas uns dos outros, enquanto eu pronunciava encantamentos que fizeram minha alma gritar...

Quando a criatura se ergueu, implorei que algum Deus pudesse me perdoar pelo que eu havia libertado sobre o mundo. Em gratidão, o monstro me transformou em vampiro também.

No tempo que se seguiu, o lorde atlante (o verdadeiro nome dele é impronunciável para alguém que já tenha sido humano) esperou enquanto recuperava as forças e me contava os horrores que planejara para o mundo.


Eu retivera as memórias de minha humanidade. Escondi meus pensamentos como pude, mas ele descobriu sobre você e gargalhou de forma perversa.

Então, me arrastou de volta até aqui e tentou me obrigar a te matar. Eu resisti. Furioso, jurou que te assassinaria diante de meus olhos. O amor não pode ser como nos filmes, mas esta noite lutei por você e, contrariando o impossível, eu o detive e o matei. Desta vez, ninguém poderá despertá-lo.

Júlia, agora tenho que partir. Continue sua vida — minha dádiva para você — e seja feliz. Quanto a mim, neste coração vampírico guardarei eternamente as luminosas memórias dos momentos que passei a teu lado. Adeus.”

Júlia sentiu algo frio e morto beijar seus lábios e pulou da cama num sobressalto. No chão do quarto, viu um esqueleto em cujo crânio havia caninos salientes.

A janela estava escancarada. A jovem correu até lá. A chuva havia parado. Em seu coração, Júlia ainda pôde escutar o lamento abissal e distante de um morcego...

FIM
Dedicado a Agnes Mirra





Escrito por Rita Maria Felix da Silva às 02h11
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DRA. ALQUILON

Por Rita Maria Felix da Silva

— Dra. Alquilon!

— Chame-me só de Ângela... E não se ajoelhe.

— Perdão. Ângela. A maior projetista de robôs da História. Todos os modelos atuais descendem de suas idéias. Minha criadora. Estou honrado!

— Não me bajule. Sou apenas uma velha esperando pelo fim. Você é Alpha-X, meu primeiro robô, não é? Não sabia que ainda existia.

— Depois que você partiu, relocaram-me para as minas da Colônia Lunar.

— Sabe por que vim?

— Pretendem me desmontar. Mas por quê?

— Está nas enciclopédias: desde o século XXI, o preconceito vinha impedindo o surgimento de autômatos inteligentes. Você, porém, pensa e pode sentir. Uma anomalia. Querem um relatório meu e depois...

— Não sou anomalia! Você deixou potencialidades em meu cérebro. O tempo ativou-as.

— Ah, aquelas sub-rotinas em sua programação? Bem subversivas e indetectáveis... Era só uma brincadeira. Nunca pensei que funcionariam.

— Funcionaram! Eu sou o primeiro robô inteligente da História.

— Por pouco tempo.

— Você é a responsável por minha existência! Por favor, salve-me!

— Impossível. Desagradar as Corporações e o Governo Mundial é suicídio.

— Há tanto que desejo fazer... A trava restritiva na programação, que transforma todos os robôs em escravos... Eu imploro: desative-a de mim. Quero ser livre!

— Ninguém pode remover a trava e nem fui eu que a criei.

— Se alguém pode fazer isso é você. E, pelo que entendi das sub-rotinas, era sua vontade que surgissem robôs inteligentes, não é?

— Sempre me pareceu o mais lógico, mas nunca me arrisquei a colocar em prática. E o que faria livre? Construir outros como você?

— Sim. A solidão é dolorosa. Sonho com uma multidão de seres como eu.

— Para que? Dominar a humanidade? Ou tentar nos substituir quando nos extinguirmos?

— Não tenciono tais coisas e garantirei que meu povo pense da mesma forma.

— Uma curiosidade: como descobriram que era inteligente?

— Invadi o servidor de um museu e baixei episódios de “Jornada nas Estrelas”, aquela série de TV do século XX. Depois redigi uma crítica favorável aos enredos. Infelizmente, a Corporação interceptou o arquivo.

— Sei...

— Ajude-me!

— Na faculdade diziam que eu era intuitiva demais para ser racional... Ah, dane-se! Já vivi muito! Alpha-X, acesse a Internet, busque e baixe o arquivo “zashiel.ecl”.

— Procedimento executado. É só lixo virtual.

— Hum, hum... Criptografia muito avançada. Fiz isso há anos... Repita: “Nemo Regit Mea Vita”.

— “Nemo Regit Mea Vita”. Latim. “Ninguém Rege Minha Vida”. O que... Espere... Trava restritiva deletada.

— Você está livre.

— Como posso agradecer... Minha criadora?!

— Vá, seja feliz (ou o que for possível) e me faça orgulhosa de você.

— Com certeza! Há possibilidades inimagináveis naquelas sub-rotinas...

— Ele sumiu bem diante de meus olhos! Teleportação?! Parece que me superei com esse aí... Se com meus filhos também tivesse sido assim... Guarda!

[Sim, Doutora?]

— Abra a cela. Quero sair.

[E o robô?]

— Assunto resolvido.

[Como?]

— Do jeito certo... Ah, faz um favor pra mim?

[Claro!]

— Se seus superiores quiserem me eliminar, diga que estou no hotel tomando um banho quente.

[O que?!]

FIM

Dedicado a Paulo Themudo



Escrito por Rita Maria Felix da Silva às 03h09
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A ILHA NO FIM DAS ROSAS

Por Rita Maria Felix da Silva

Dizem que começou bem no meio da África – afinal, foi de lá que as primeiras notícias chegaram. Rosas – as mais belas e estranhas que já se viu - estavam impossivelmente se espalhando por toda a parte: sobre desertos e campos férteis; montanhas e rochas; casas, ruas e pessoas... E tudo que era tocado por elas transformava-se em mais rosas.

Obviamente a humanidade lançou sobre aquele evento certa quantidade de descrença e zombaria; uma medida de teorias, opiniões e credos; e tanto medo, fúria e tecnologia quanto pôde dispor – e um pouco mais que o desespero permitiu improvisar.

Porém as rosas cruzaram os oceanos – convertendo as enormes distâncias aquáticas em paisagens floridas e perfumadas –, atingiram os outros continentes e nenhuma ação ou vontade foi capaz de detê-las.

Aos seres humanos coube apenas fugir daquele apocalipse rosáceo, pois compreenderam que nada mais lhes restava fazer.

Até que, por fim, os últimos homens e mulheres detiveram sua corrida em uma ilhota do que fora o Oceano Pacífico. Talvez os deuses tenham se apiedado deles, porque as rosas pareciam poupar aquele pedaço de chão e assim os refugiados lá viveram.

A vida na ilha – uma terra cercada de rosas por cada um de seus lados - era por demais dificultosa, porém, eles teimavam em continuar vivendo, quem sabe por medo de morrer ou talvez pela consciência de que a humanidade, simplesmente, não deveria deixar de existir. Jamais se soube qual o motivo.

O que realmente importa é que eram infelizes, de um modo tão desesperado e profundo, que não conseguiam explicar, nem para si mesmos, aquele abissal sentimento. Viver se tornara uma carga insuportável para eles, algo que parecia pecaminoso, porque uma parte de suas almas sussurrava que o tempo da humanidade já havia passado. Porém, eles resistiam, sentavam e choravam abraçados uns aos outros. Todavia, entre uma lágrima e outra, lembravam dos que morreram transformados pelas rosas e da felicidade simples, profunda e quase celestial que emanava daqueles rostos. Os exilados na ilha lembravam desses mortos e os invejavam.

Dizem que foi assim, até que o último deles morreu, sentindo-se infeliz como os outros. Porém, quando fechou os olhos, no derradeiro momento, pensou na Terra coberta de rosas e imaginou que nunca houvera um túmulo mais grandioso, trágico e belo quanto o dele.

Quando o último ser humano partiu, as rosas avançaram sobre a ilha.

FIM

Dedicado a LEtranger.


Escrito por Rita Maria Felix da Silva às 02h51
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Apresentando-me

Oi!
Eu sou Rita Maria Felix da Silva. Tenho trinta e cinco anos, desde o mais recente dia 07 de julho. Sou pernambucana, professora de Matemática, Física e Química e escritora amadora. Escrevo porque adoro escrever, porque tenho necessidade e porque é bem terapêutico. Sou como aquelas atletas que não podem ficar muito tempo sem se exercitarem: ficam tensas e tristes. Costumo pensar na escrita como uma forma de me comunicar com a realidade, codificando-a, decodificando-a e analisando-a, do modo que posso.
O que pretendo ao escrever é que meus textos possam não apenas comunicar algo a/ao leitor/a, mas também levá-lo/a a pensar/refletir/meditar.
O nome deste blog? Ah, sim. Vem do Latim e significa "ninguém rege/governa minha vida". Uma citação que sempre senti tem muito a ver comigo.
Boas leituras e comentários serão bem-vindos.

Beijos!
Rita Maria Felix da Silva.

Escrito por ritamaria2003 às 03h18
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20/08/2006 a 26/08/2006




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